segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O "Proxímo" em Nossos Pequenos Atos - Introdução

Aldous Huxley, ao refletir sobre um mundo onde se prioriza o bem estar geral, condena a tendência a que todos nós temos de buscar o prazer imediato nas coisas, Carpe Diem. A pergunta: “em que essa ação contribuirá na construção da minha felicidade e na de todos os outros?”, deveria nortear cada uma de nossas escolhas. Desta forma, Huxley correu o risco de ter seu pensamento taxado de “utópico”. Que assim seja! A utopia trás consigo o poder da desbanalização. Idealizar um mundo utópico não é querer pô-lo em prática de uma só vez, nem mesmo esperar que seja viável. No entanto, é refletindo sobre a proposta da utopia e voltando nosso olhar para realidade que encontraremos falhas e possibilidades de melhoria no mundo em que vivemos. O banal se desbanaliza e então passamos a estranhar o comum.
O banal é sempre subjetivo. Geralmente está inserido na rotina, sendo necessário um olhar externo para percebê-lo. É nesse sentido que, tendo nossos defeitos apontados por outros, julgamos não conhecer a nós mesmos ou negamos agir da forma como foi apontado. Apenas numa sociedade completamente alienada, como em “Admirável Mundo Novo” de Huxley, encontramos a banalidade generalizada. Mesmo elementos culturais, se apresentam em consenso apenas para pequenos grupos e, a menos que se considerem esses grupos como sociedades autônomas, o banal continua sendo algo subjetivo. Uma evidência dessa subjetividade é que para se concretizar uma ação é necessário que exista não só o agente, mas também o paciente. A importância disso é que toda ação é refletida, mesmo que indiretamente, sobre alguém. Geralmente não compreendemos a importância de pequenos gestos na manutenção da ordem social, familiar, etc... Isso por não percebermos que elementos inseridos em nossa rotina podem sobrepor-se à rotina de outros, alterando-as.
A rotina, como repetição compulsiva de atividades diárias, desapropria nossas ações de um caráter racional. E exatamente por estar vinculada à sobrevivência e, portanto, adaptada às características próprias de cada indivíduo é que essa irracionalidade acaba se apresentando como egoísmo. Esses são dois princípios básicos na construção da rotina. Sua principal função é selecionar ações para a construção de caminhos rápidos na tentativa de atingir nossos objetivos de forma eficaz. O caráter irracional advém não só da repetição, mas da velocidade com que as ações devem ser realizadas para se atingir os objetivos. O egoísmo, além da sobrevivência, prioriza ações que exijam menos esforço e proporcionem maior prazer imediato. A adequação de nosso metabolismo, relações sociais e da relação que estabelecemos com nós mesmos à rotina acaba tornando-a um “vício”. Dessa forma, apresentamos uma tendência a permanecer na rotina. A rotina possui caráter imutável.
Essas três características: irracionalidade, egoísmo e imutabilidade fazem da rotina uma “fábrica de banalizações”. O termo “fábrica” está associado ao ritmo acelerado que a economia capitalista impõe ao regime de vida do homem contemporâneo. O estímulo à individualidade, a corrida por status social e a produção a qualquer custo restringe a consciência do homem apenas a si mesmo estabelecendo um “perímetro” que o separa do todo. A impossibilidade de refletir sobre a sociedade impede a percepção da influência de suas ações sobre a rotina de outros e acaba por desarmonizá-las. Cria-se um ciclo: 1) cada um prioriza suas próprias necessidades. 2) usam-se as rotinas para atingir esses objetivos. 3) as rotinas se sobrepõem. 4) falhas em ações de uma das rotinas são transferidas para outras rotinas. 5) a rotina é quebrada para que haja correção das falhas. 6) o causador das falhas continua alheio a tudo que não diz respeito às suas necessidades. O ciclo culmina com a quebra da rotina que é desencadeada principalmente por pequenas ações geralmente tidas como insignificantes.
São nas pequenas ações que se concentram as banalidades. A mediocridade de pequenos atos como posicionar objetos em mesas e prateleiras raramente estimulam a reflexão sobre como isso pode influenciar o bem estar de outras pessoas. Se pudéssemos eleger algo que representasse o caráter geral e absoluto do banal, sem dúvida deveríamos procurá-lo em nossas rotinas. Não só pela amplitude desse termo que abarca todos os atos compulsórios de nossas vidas, desde a respiração até a produção de arte e tecnologia, mas pela conexão que cria entre toda a sociedade. Coordenando-a e estabilizando-a através de atividades compensatórias de uns e de outros amenizando falhas e desvios provocados inconscientemente por cada um de nós.